
segunda-feira, 3 de maio de 2010
quinta-feira, 8 de abril de 2010
IIII
Tenho pelos meus poemas
a ternura que a coruja tinha pelos filhos
mas não tenho a sua cegueira
porque sei que Diderot acha os meus poemas maus
a coruja disse à águia
podes comer os passarinhos que quiseres
mas não comas os meus filhos
os meus filhos são os passarinhos mais bonitos
que encontrares na floresta
a águia comeu os meus filhos da coruja
comi os teus filhos porque eram feios
disse a águia à coruja
as comparações são muito perigosas
(como diamantes)
certas comparações valem fortunas
não vejo o que possa ser comer poemas
talvez fazer contas ou hieróglifos obscenos
nos papéis onde estão os meus poemas
não vejo quem possa ser a águia
Diderot não é a águia
mas uma pessoa neste momento
pode estar a fazer contas e hieróglifos obscenos
nos filhos de uma coruja
talvez Walt Disney visse
a ternura que a coruja tinha pelos filhos
mas não tenho a sua cegueira
porque sei que Diderot acha os meus poemas maus
a coruja disse à águia
podes comer os passarinhos que quiseres
mas não comas os meus filhos
os meus filhos são os passarinhos mais bonitos
que encontrares na floresta
a águia comeu os meus filhos da coruja
comi os teus filhos porque eram feios
disse a águia à coruja
as comparações são muito perigosas
(como diamantes)
certas comparações valem fortunas
não vejo o que possa ser comer poemas
talvez fazer contas ou hieróglifos obscenos
nos papéis onde estão os meus poemas
não vejo quem possa ser a águia
Diderot não é a águia
mas uma pessoa neste momento
pode estar a fazer contas e hieróglifos obscenos
nos filhos de uma coruja
talvez Walt Disney visse
Adília Lopes 29.XII.1985
O Poeta de Pondichéry
terça-feira, 6 de abril de 2010
Para um adversário à altura
Bate! - se é verdadeira
a causa por que lutas,
embora em pedaços
me derrubes
do meu lugar.
Há um milagre! - esse
que me refaz inteiro.
E me levanta.
a causa por que lutas,
embora em pedaços
me derrubes
do meu lugar.
Há um milagre! - esse
que me refaz inteiro.
E me levanta.
Gyula Illyés (1902/1983)
domingo, 21 de março de 2010
falta por aqui uma grande razão
uma razão que não seja só uma palavra
ou um coração
ou um meneio de cabeças após o regozijo
ou um risco na mão
ou um cão
ou um braço para a história
da imaginação
-
podemos pois está claro
transferir-nos
imaginar durante um quarto de hora
os séculos que virão
- os séculos um
e dois
da colonização -
depois
depois é este cair na madrugada ardente
na madrugada de constantemente
sem sol
e sem arpão
-
faltas tu faltas tu
falta que te completem
ou destruam
não da maneira rilkeana vigilante mortal solícita e obrigada
- não, de nenhuma maneira resultante!
nem mesmo o amor
não é o amor que falta
-
falta uma grande realmente razão
apenas entrevista durante as negociações
oclusa na operação do fuzilamento cantante
rodoviária na chama dos esforços hercúleos
morta no corpo a corpo do ismo contra ismo
-
falta uma flor
mas antes de arrancada
falta, ó Lautréamont, não só que todo o figo como o seu burro
mas que todos os burros se comam a si mesmos
que todos os amores palavras propensões sistemas de palavras e de propensões
se comam a si mesmos
muitas horas por dia até de manhã cedo
até que só reste o a o b e o c das coisas
para o espanto dos parvos
que aliás não estão a mais
isso eu o espero
e o faço
junto à imagem da
criança morta
depois que Pablo Picasso devorou o seu figo
sobre o cadáver dela
e longas filas de bandeiras esperam
devorar Picasso
que é perto da criança, ao lado da boca minha
uma razão que não seja só uma palavra
ou um coração
ou um meneio de cabeças após o regozijo
ou um risco na mão
ou um cão
ou um braço para a história
da imaginação
-
podemos pois está claro
transferir-nos
imaginar durante um quarto de hora
os séculos que virão
- os séculos um
e dois
da colonização -
depois
depois é este cair na madrugada ardente
na madrugada de constantemente
sem sol
e sem arpão
-
faltas tu faltas tu
falta que te completem
ou destruam
não da maneira rilkeana vigilante mortal solícita e obrigada
- não, de nenhuma maneira resultante!
nem mesmo o amor
não é o amor que falta
-
falta uma grande realmente razão
apenas entrevista durante as negociações
oclusa na operação do fuzilamento cantante
rodoviária na chama dos esforços hercúleos
morta no corpo a corpo do ismo contra ismo
-
falta uma flor
mas antes de arrancada
falta, ó Lautréamont, não só que todo o figo como o seu burro
mas que todos os burros se comam a si mesmos
que todos os amores palavras propensões sistemas de palavras e de propensões
se comam a si mesmos
muitas horas por dia até de manhã cedo
até que só reste o a o b e o c das coisas
para o espanto dos parvos
que aliás não estão a mais
isso eu o espero
e o faço
junto à imagem da
criança morta
depois que Pablo Picasso devorou o seu figo
sobre o cadáver dela
e longas filas de bandeiras esperam
devorar Picasso
que é perto da criança, ao lado da boca minha
Mário Cesariny
´
um carinho profundo no Dia da Poesia
quarta-feira, 10 de março de 2010
segunda-feira, 8 de março de 2010
Há toda a humanidade com quem falar
Também existe tu.
Não tenho medo de ser mal entendido.
Quando falo porque devo, a paisagem
transborda de figuras que querem ouvir.
Unidos pela nossa ignorância lutamos, e as palavras
materializam-se, começam a ter importância.
Será isto surpreendente, invulgar?
De todo. A língua é o nosso dom evidente: O Verbo,
tornado carne, é procurado de novo.
Fazemo-lo enquanto fazemos as nossas vidas.
Também existes tu,
que falas para ti próprio
e que tens de ser ouvido.
Também existe tu.
Não tenho medo de ser mal entendido.
Quando falo porque devo, a paisagem
transborda de figuras que querem ouvir.
Unidos pela nossa ignorância lutamos, e as palavras
materializam-se, começam a ter importância.
Será isto surpreendente, invulgar?
De todo. A língua é o nosso dom evidente: O Verbo,
tornado carne, é procurado de novo.
Fazemo-lo enquanto fazemos as nossas vidas.
Também existes tu,
que falas para ti próprio
e que tens de ser ouvido.
Nissim Ezekiel
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Amor sem tréguas
É necessário amar,
qualquer coisa, ou alguém;
o que interessa é gostar
não importa de quem.
Não importa de quem,
nem importa de quê,
o que interessa é amar
mesmo o que não se vê.
Pode ser uma mulher,
uma pedra, uma flor,
uma coisa qualquer,
seja lá do que for.
Pode até nem ser nada
que em ser se concretize,
coisa apenas pensada,
que a sonhar se precise.
Amar por claridade,
sem dever a cumprir;
uma oportunidade
para olhar e sorrir.
Amar como o homem forte
só ele o sabe e pode-o;
amar até à morte,
amar até ao ódio.
Que o ódio, infelizmente,
quando o clima é de horror,
é forma inteligente
de se morrer de amor.
qualquer coisa, ou alguém;
o que interessa é gostar
não importa de quem.
Não importa de quem,
nem importa de quê,
o que interessa é amar
mesmo o que não se vê.
Pode ser uma mulher,
uma pedra, uma flor,
uma coisa qualquer,
seja lá do que for.
Pode até nem ser nada
que em ser se concretize,
coisa apenas pensada,
que a sonhar se precise.
Amar por claridade,
sem dever a cumprir;
uma oportunidade
para olhar e sorrir.
Amar como o homem forte
só ele o sabe e pode-o;
amar até à morte,
amar até ao ódio.
Que o ódio, infelizmente,
quando o clima é de horror,
é forma inteligente
de se morrer de amor.
António Gedeão, 1961
Obra Poética
(resposta)
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso ao quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do tempo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso ao quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do tempo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.
Ruy Cinatti
(1915-1986)
Digam-me que o amor não morreu...
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Orloj, relógio astronómico
O Orloj é um relógio astronômico medieval, localizado em Praga. Este relógio foi montado na parede sul da Prefeitura Municipal da Cidade Velha na Praça da Cidade Velha."
Wikipédia
Viva Praga!!! =)
Viva Portugal!!!!
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Disse Fêmea
Disse Fêmea
Disse fêmea
Disse fêmea
Mulher feita
Disse fêmea
Disse cresce
Disse muda
Perde a estúpida inocência
Dia após dia
Para aonde ia
Disse fêmea
Mulher feita
Mal eu sabia
Que a vida rouba os sonhos
Mal eu sabia
Que o mundo nos desmama
De paixões surdas,
Cava na cara
Sulcos secos,
Sulcos secos
Disse fêmea
Mulher feita
Faz-te fêmea
Ama-te a ti mesma
O mundo espera
Cheio de tudo
Come-o, feliz, sã, gloriosa, cheia
Diz-te fêmea
Mulher feita
Eu não sabia
Que nascemos sombras
Eu não sabia
Que todos têm medo
De falhar, de perder
Não há braços de fêmea
Para embalar
O mundo
Disse fêmea
Mulher feita
Acabou-se o que era doce
Acabaram-se os amantes
O preço da mão estendida é
A pagar, a pagar,
Mais cedo ou mais tarde
Não repitas os meus erros
Menina feita mulher
Disse fêmea
Mulher feita
Disse fêmea
Disse cresce
Disse muda, muda, muda
Perde essa estúpida inocência
Dia após dia,
Após dia,
Para aonde ia
Disse fêmea
Menina feita mulher
Menina feita mulher
Menina feita mulher.
Arnold Wesker / Jorge Palma, 2001
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
George Brassens song
Heureux qui comme Ulysse
A fait un beau voyage
Heureux qui comme Ulysse
A vu cent paysages
Et puis a retrouvé
Après maintes traversées
Le pays des vertes années
Quand on est mieux ici qu'ailleurs
Quand un ami fait le bonheur
Qu'elle est belle la liberté
La liberté
Thank You Joachim*
A fait un beau voyage
Heureux qui comme Ulysse
A vu cent paysages
Et puis a retrouvé
Après maintes traversées
Le pays des vertes années
Quand on est mieux ici qu'ailleurs
Quand un ami fait le bonheur
Qu'elle est belle la liberté
La liberté
Thank You Joachim*
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Férias
terça-feira, 28 de julho de 2009
Um Mundo Absolutamente Ideal
Questões como 'O que é o Absoluto?' ou 'O que é o Mundo ideal?' são respondidas através da visão de alguns artistas portugueses na exposição 'In an Absolut World', patente no espaço MUUDA, no Porto, até 12 de Setembro.Para mim que não tenho jeito nenhum para as artes plásticas, para o design a moda ou a fotografia, restam-me as palavras e as suas combinações nem sempre absolutamente ideais e muitas vezes pouco compreendidas. Mea culpa e culpa desta ferramenta que nos obriga a dar-nos em Absoluto para os espaços em branco serem idealmente preenchidos.
A ideia desta exposição e de outras do género que se fazem pelo mundo fora é da marca 'Absolut Vodka', que embora não seja idealmente portuguesa, aquece as almas lusas por esse país fora em noites de Verão que se querem absolutamente alegres.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Carta a Maria do Carvalhal Alvito
Querida Maria - subitamente o fino
Deste primeiro frio misturado
Com um sabor de lenha e de maçã
Algo recorda: tacteio na memória
Procurando o onde o quando o quem
E a tua casa reabre de repente as suas portas
E caminho nos quartos entre
Os raios da luz e o cismar das penumbras
E vens ao meu encontro e és meu abrigo
Pranto e saudade em cada gesto irrompem
Mas a irreversível alegria do ter sido
Não deixará jamais de estar comigo
E há um sabor de lenha e de maçã
E o tempo é jovem próximo e amigo
E rimos juntas nesse dia antigo
E entro na tua casa e és meu abrigo
Deste primeiro frio misturado
Com um sabor de lenha e de maçã
Algo recorda: tacteio na memória
Procurando o onde o quando o quem
E a tua casa reabre de repente as suas portas
E caminho nos quartos entre
Os raios da luz e o cismar das penumbras
E vens ao meu encontro e és meu abrigo
Pranto e saudade em cada gesto irrompem
Mas a irreversível alegria do ter sido
Não deixará jamais de estar comigo
E há um sabor de lenha e de maçã
E o tempo é jovem próximo e amigo
E rimos juntas nesse dia antigo
E entro na tua casa e és meu abrigo
Lisboa, Novembro de 1986
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ilhas
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